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Ana Luísa Alvares Zuppani
Brasileira, carioca, engenheira. Mora em Uusikaupunki, Finlândia, desde 2003.

Pra começar, descreve um pouco de ti. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Ana Luísa: Ana Luísa Alvares Zuppani, Ana (Banana) ou Aninha entre amigos
Brasileiro/a de onde? Nascida no Rio de Janeiro, criada em Niterói-RJ, morei em São Paulo nos 6 anos anteriores a minha mudanca. Sou engenheira, trabalho como process improver /engenheira de processo. Adoro aprender idiomas, conhecer novas culturas, viajar, cinema, leitura, palavras cruzadas (comprei um monte na última visita ao Brasil), seriados enlatados, comer, em especial comida brasileira, amo doces (brigadeiro, petit gâteau, pudim), jogar conversa fora, falar, escrever... bem, adoro um monte de coisas!
Ah, meu blog é http://ananafinlandia.blogspot.com Não
tenho pretensões literárias por lá, só escrevo sobre meu dia-a-dia, as diferenças entre os países, e situações curiosas que vivo.

Quanto tempo faz que moras fora do Brasil?
Ana Luísa: Saí em agosto de 2003, me instalei na Finlândia em definitivo no final de setembro de 2003.

Por que saíste do país? Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Ana Luísa: Quando terminei a faculdade, fui contratada como trainee para uma empresa que produz vidros (há duas divisões: arquitetura (vidros para construção civil) e automotivo (vidro para carros, pára-brisas, janelas, etc)). Trabalhava como engenheira de processo numa linha de pára-brisas. Depois de poucos meses de empresa, surgiu a oportunidade de vir para a Finlândia. Não diria que por mérito meu, muitos brasileiros foram expatriados na mesma época, pois a empresa queria que ganhássemos experiência internacional. Foi assim que vim para na terra do papai Noel, assim como outro colega brasileiro (que trabalha numa outra planta), originalmente para ficar 2 anos.

O que mais gosta daqui?
Ana Luísa: Da honestidade das pessoas, igualdade social, da aurora boreal, de ver as folhas caindo no outono e nascendo na primavera, de olhar através da janela a neve caindo lá fora, de ter flexibilidade no trabalho

O que menos gosta daqui?
Ana Luísa: Sem dúvida nenhuma, o idioma, que é difícil, diferente e esquisito. Também não gosto nada nada dos impostos (hehehehe) que pago, que consomem 2/3 do meu salário. Não gosto muito de morar numa cidade pequena, que não sabe o que é cinema, restaurantes, bares.
Profissionalmente as pessoas são um tanto quanto lerdas. Decisões e ações demoram muito tempo, às vezes dá vontade de empurrar os finlandeses para ver se eles pegam no tranco!
O inverno é bonito mas um tanto longo. O frio a gente até agüenta, mas não precisava durar tanto tempo!

O que mais sente falta do Brasil?
Ana Luísa: Antes de qualquer coisa, da minha família e amigos. Já chorei muito por isso, mas agora estou melhor. Acho muito difícil fazer amigos por aqui, não só pela diferença cultural, mas também por não estar inserida em muitos grupos sociais (além do trabalho, já que faço aulas de finlandês particulares). Meus amigos são todos brasileiros ou da família do meu namorado.
Sinto falta da nossa comida (carne pelamordedeus!), da nossa música, das praias fluminenses (as praias daqui não tem aquela areia branquinha, e sim um monte de pedras que machucam o pé), de uma vida mais caótica numa cidade grande, de ter várias opções de lazer. Mas essas são coisas menores, dá para sobreviver sem elas, ou as tendo em menor quantidade.

O que menos sente falta do Brasil?
Ana Luísa: Da violência, do constante medo que a população brasileira vive. Nunca fui daquelas encanadas, que andava de vidro fechado e carro trancado, mas ainda assim percebo uma grande diferença entre os países. Dá para imaginar uma casa sem muros ou grades à sua volta? Uma casa cuja chave fica pendurada na porta, para qualquer um abrir? Isso é uma boa realidade da Finlândia. Outra coisa que certamente não sinto falta é da desigualdade social. É triste vermos tantos pobres e tão poucos ricos, tanta gente passando fome, ou trabalhando como camelos por salários no mínimo vexatórios. A princípio estranhei quando descobri que um operador ganhava o mesmo que um engenheiro. Foi minha mentalidade brasileira falando mais alto, achando que eu merecia mais mesmo por ter um curso superior. Mas então percebi o quanto a sociedade funcionava melhor dessa forma. Seja uma faxineira, seja um gerente, todos tem uma vida digna, uma casa própria paga em 20 anos via empréstimo, assistência médica, hobbies.
O jeitinho brasileiro também não me faz falta. Temos a fama de tentarmos sempre quebrar as regras. Não acho que devamos ser inflexíveis, mas o jeitinho dá margem ao surgimento de corrupção e outras coisas. Querer sempre tirar vantagem dos outros não está com nada.

Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos futuros?
Ana Luísa: Quero muito!!! Com todos os problemas que temos, ainda é o meu país. Agora O quando é uma grande interrogação... Meu contrato vai até set/05, mas vou renová-lo por mais 2 anos. Hoje eu moro com meu namorado, e o amor muda nossas perspectivas. Seria complicado para ele arrumar um emprego por lá, sem nem saber português (mas estou trabalhando com isso!). Só se ele fosse transferido....

Tens algum objeto ou algo que te lembre Brasil, que entendas como parte da tua identidade brasileira?
Ana Luísa: Minha havaianas com a bandeira do Brasil, cds de música brasileira, comida brasileira que não faço só para mim, mas gosto de apresentá-la aos finlandeses

O que é ser brasileiro/a pra ti? Na tua opinião qual seria uma característica típica brasileira? Tu a tens?
Ana Luísa: Brasileiro é um povo alegre, que sorri mesmo quando lhe faltam dentes na boca, que busca ver o melhor nas piores situações. Acho que sou assim também, demonstro felicidade. Sempre me perguntam porque estou sorrindo tanto. Mas o faço sem nem perceber, é algo natural!

Te sentes mais ou menos brasileiro/a por viver fora do país?
Ana Luísa: Hum... talvez me sinta mais patriota. Tento representar meu país por aqui, divulgá-lo, falar sobre nossa cultura, nossas tradições, mas sem esquecer que também existem problemas. Mas percebi que me irrito se alguém fala mal do Brasil por algum motivo infundado, e defendo-nos com unhas e dentes!

*Entrevista enviada por email por Ana Luísa Alvares Zuppani. Fevereiro de 2005.