Pra começar, descreve um pouco
de ti. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Anaenza: Sou paulistana filha de
um napolitano e uma carioca. Sou médica infectologista,
mame de duas lindas crianças bilíngües, filhas
de um papai de origem judia marroquina. Sou médica infectologista
e trabalho atualmente na pesquisa clinica. Adoro viajar, nadar,
trackings e banhos em lago de montanhas, praias de oceano se possível
Atlântico. adoro e preciso caminhar
Quanto tempo faz que moras fora do Brasil?
Anaenza: Moro em Paris desde final
de setembro 1990. 14 anos de crises de identidade e exílio
filosófico!
Por que saíste do país?
Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Anaenza: Por curiosidade cultural e cientifica
e sobretudo por exílio filosófico, não aceitando
que meu pais elegeu o Collor de Mello para presidente em eleições
diretas!!!
O que mais gosta daqui?
Anaenza: Da estrutura social, em pela degradação,
mas que ainda permite uma estratificação mais equitavel
que a nossa (mais injusta e caótica é difícil).
A qualidade só serviço publico, com boas escolas,
sistema de saúde, atualmente deteriorados pela mundialização
e governo de direita.Adoro Paris como cidade linda e cruel. Gosto
das opções que tenho para educar decentemente meus
filhos. Da noção de cidadania deste pais.Viagens
que faço por aqui!
O que menos gosta daqui?
Anaenza: Do mau humor, que já adquiri
(ou sempre tive???) do francês. Do despeito e da hipocrisia
do francês Da dificuldade de improvisação
e inovação.
O que mais sente falta
do Brasil?
Anaenza: Do sol, das praias, de minha família,
do sorriso franco das pessoas, do jeito negligente e caloroso
de ser. sou de origem mediterrânea e assimilei muito do
jeito índio de ser do brasileiro e ha quase quinze anos
vivo nesta saudades.
O que menos sente falta
do Brasil?
Anaenza: Da superficialidade das
patricinhas e mauricinhos da classe média brasileira. Das
diferenças sócio culturais imensas e reforçadas
por uma burguesia superficial e pretensiosa que vive como senhores
de engenho em algozes "benfeitore"dos porteiros, zeladores,
empregadas, meninos de rua, etc, etc....
Queres voltar ao Brasil?
Quando? Planos futuros?
Anaenza: Sim planos de retorno sempre me
acompanharam mesmo se sinto que são mais hipotéticos
que concretos. Meu pais agora já é um sonho, um
mito. Mas tenho uma família linda por lá e quem
sabe um dia quando as condições melhorarem ou minha
crise pessoal piorar não iremos nos 4 eu, Luc, Taïna
e Théo viver ao lado da vovô, vovó , bisa,
titia.
Tens algum objeto ou
algo que te lembre Brasil, que entendas como parte da tua identidade
brasileira?
Anaenza: Nossa casa parece muito com uma casa brasileira, mesmo
que eu mais pareça uma italiana. Temos diversos instrumentos
berimbau, pandeiro...,plantas transformando a sala numa selva,
quadro de Sabara na parede , tudo isto me faz sentir no Brasil.
O que é ser brasileiro/a pra ti?
Na tua opinião qual seria uma característica típica
brasileira? Tu a tens?
Anaenza: Ser brasileiro é uma mistura harmônica do
europeu desraizado do índio invadido, do africano martirizado,
com um sorriso leve pronto para conquistar o que aparecer. Ser
brasileiro é mexer no cabelo de um jeito que no metro parisiense
que nos conhece nos reconhece, é andar dançando
mesmo quando se é tímido, é amar o mar, a
praia, o sol. Se destacar na música por intuição
e competência.
Te sentes mais ou menos brasileiro/a
por viver fora do país?
Anaenza: Me sinto muito brasileira por vezes exarcebo minha identidade
pela saudades de ser ou então os babacas dos franceses
me relembram isto. Se não me "culpabilizo" por
não atuar no momento histórico do meu pais com Lula
presidente.
Algo mais?
Tenho dois filhos lindos bilíngües
Taïna, 11 anos que faz capoeira e adora uma batucada e Théo
7.5 anos, ilustre proprietário de um berimbau que é
louco de futebol, como seu nonno.
O Luc é um machidão e tanto que talvez seja ou é
com certeza a melhor coisa que eu poderia ter encontrado neste
pais, adora o Brasil, respeita nossa cultura, suporta minhas crises
anti França e sempre esta pronto a me apoiar. Além
de tudo não é nada machista e é um super
pai!
*Entrevista
enviada por email por Anaenza Maresca. Fevereiro de 2005.