KB: Pra começar, descreve um pouco
tua pessoa. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Grillo: Sou arquiteto, estou fazendo
um doutorado em Barcelona, com bolsa da CAPES. No Brasil, dou
aula no curso de arquitetura da PUC-MG, e tenho um escritório.
No mais, sou um tipo que gosta de tranqüilidade, de estar
junto à natureza, de viajar, de esportes, de cinema...
KB: Quanto tempo faz
que moras fora do Brasil?
Grillo: Cheguei em agosto
de 2001, e ficarei quatro anos, até metade ou final de
2005.
KB: Por que saíste do país?
Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Grillo: No Brasil, estava cada vez mais
envolvido com a vida acadêmica, onde a titulação
é fundamental. E para mim, era mais fácil e melhor
fazer um doutorado fora com bolsa que fazer no Brasil. Na hora
de escolher o lugar, pesaram vários fatores, como o clima
e o custo de vida. Já havia morado um ano em Barcelona,
em 1988-89, quando conheci boa parte das capitais européias,
e acabei optando por voltar a Barcelona.
KB: O que mais gosta
daqui?
Grillo: Gosto de viver aqui na Europa
numa sociedade com menos desigualdades, com mais civismo, e com
toda a estrutura que o primeiro mundo pode oferecer.
Barcelona, especificamente, é uma cidade muito bonita,
agradável, cosmopolita, dinâmica, com muita oferta
cultural, artística e de lazer accessível, o transporte
urbano funciona super bem (se vive bem sem carro!), tem praia,
e o clima é razoavelmente ameno. Enfim, Barcelona oferece
uma ótima qualidade de vida, acho que é uma das
melhores cidades para se viver, pelo menos por um tempo. Além
disso, estamos perto de muito lugar interessante.
KB: O que menos gosta daqui?
Grillo: O povo aqui é de uma cultura
mais reservada que a nossa, e é um pouco difícil
não apenas aproximar-se, como também viver com eles
com o mesmo grau de proximidade e informalidade com que estamos
acostumados no Brasil. Não acho de todo ruim sentir-me
um outsider, especialmente porque sei que estou de passagem, mas
fica também a sensação estranha da distância,
de uma certa falta de acolhimento.
Também me cansam aqui os nacionalismos, separatismos, a
ênfase na diferença.
E o inverno também dura demais.
KB: O que mais sente
falta do Brasil?
Grillo: Dos amigos, de saber que se vai
a um determinado bar e vai encontrar gente conhecida, de uma certa
sensação de pertencimento, e do calor, quando se
começa a cansar do inverno.
KB: O que menos sente
falta do Brasil?
Grillo: Da gritante desigualdade
social, e dos problemas a isto relacionados, como a falta de segurança.
KB :Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos
futuros?
Grillo: Minha condição de
bolsista me obriga a voltar, e ficar ali pelo menos um tempo.
Assim que já vim com a cabeça feita para aproveitar
os quatro anos do doutorado. Mas estou achando bom voltar. Ali,
me espera minha casa no Jambreiro, minha vaga como professor na
PUC, e reativar o escritório, não está nada
mal. São meus planos a curto e médio prazo. Depois,
a ver que pasa. De outras vezes que estive fora, sempre
tive a certeza de querer voltar, que preferiria viver no Brasil.
Hoje este apego não é tão forte, mas mesmo
assim, o Brasil ainda é minha primeira opção.
KB: Tens
algum objeto ou algo em concreto que te lembre Brasil, que entendas
como parte da tua identidade brasileira?
Grillo: Dando uma olhada a minha volta aqui em casa, vejo que
não há nenhum objeto tipicamente brasileiro à
vista. Na verdade, não faço muita questão
de ficar deixando patente minha identidade de origem, e não
me considero muito saudosista. Não trouxe nenhum objeto
decorativo de lá (está tudo encaixotado), tenho
aqui algumas coisas que ganho ou vou adquirindo das viagens que
faço, fragmentos de uma identidade um pouco nômade,
universal. Mas tenho uma Havaiana, uma Salinas, e vários
CDs de música brasileira.
*Entrevista e fotos feitas
por Karla Brunet em Barcelona, setembro de 2004.