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. nem mais nem menos brasileiro 
.abertura e tolerância
 

Antonio Grillo
Brasileiro, mineiro, arquiteto. Mora em Barcelona desde 2001.*

 

KB: Pra começar, descreve um pouco tua pessoa. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Grillo: Sou arquiteto, estou fazendo um doutorado em Barcelona, com bolsa da CAPES. No Brasil, dou aula no curso de arquitetura da PUC-MG, e tenho um escritório. No mais, sou um tipo que gosta de tranqüilidade, de estar junto à natureza, de viajar, de esportes, de cinema...

KB: Quanto tempo faz que moras fora do Brasil?
Grillo: Cheguei em agosto de 2001, e ficarei quatro anos, até metade ou final de 2005.

KB: Por que saíste do país? Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Grillo: No Brasil, estava cada vez mais envolvido com a vida acadêmica, onde a titulação é fundamental. E para mim, era mais fácil e melhor fazer um doutorado fora com bolsa que fazer no Brasil. Na hora de escolher o lugar, pesaram vários fatores, como o clima e o custo de vida. Já havia morado um ano em Barcelona, em 1988-89, quando conheci boa parte das capitais européias, e acabei optando por voltar a Barcelona.

KB: O que mais gosta daqui?
Grillo: Gosto de viver aqui na Europa numa sociedade com menos desigualdades, com mais civismo, e com toda a estrutura que o primeiro mundo pode oferecer.
Barcelona, especificamente, é uma cidade muito bonita, agradável, cosmopolita, dinâmica, com muita oferta cultural, artística e de lazer accessível, o transporte urbano funciona super bem (se vive bem sem carro!), tem praia, e o clima é razoavelmente ameno. Enfim, Barcelona oferece uma ótima qualidade de vida, acho que é uma das melhores cidades para se viver, pelo menos por um tempo. Além disso, estamos perto de muito lugar interessante.

KB: O que menos gosta daqui?
Grillo: O povo aqui é de uma cultura mais reservada que a nossa, e é um pouco difícil não apenas aproximar-se, como também viver com eles com o mesmo grau de proximidade e informalidade com que estamos acostumados no Brasil. Não acho de todo ruim sentir-me um outsider, especialmente porque sei que estou de passagem, mas fica também a sensação estranha da distância, de uma certa falta de acolhimento.
Também me cansam aqui os nacionalismos, separatismos, a ênfase na diferença.
E o inverno também dura demais.

KB: O que mais sente falta do Brasil?
Grillo: Dos amigos, de saber que se vai a um determinado bar e vai encontrar gente conhecida, de uma certa sensação de pertencimento, e do calor, quando se começa a cansar do inverno.

KB: O que menos sente falta do Brasil?
Grillo: Da gritante desigualdade social, e dos problemas a isto relacionados, como a falta de segurança.

KB :Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos futuros?
Grillo: Minha condição de bolsista me obriga a voltar, e ficar ali pelo menos um tempo. Assim que já vim com a cabeça feita para aproveitar os quatro anos do doutorado. Mas estou achando bom voltar. Ali, me espera minha casa no Jambreiro, minha vaga como professor na PUC, e reativar o escritório, não está nada mal. São meus planos a curto e médio prazo. Depois, a ver que pasa. De outras vezes que estive fora, sempre tive a certeza de querer voltar, que preferiria viver no Brasil. Hoje este apego não é tão forte, mas mesmo assim, o Brasil ainda é minha primeira opção.

KB: Tens algum objeto ou algo em concreto que te lembre Brasil, que entendas como parte da tua identidade brasileira?
Grillo: Dando uma olhada a minha volta aqui em casa, vejo que não há nenhum objeto tipicamente brasileiro à vista. Na verdade, não faço muita questão de ficar deixando patente minha identidade de origem, e não me considero muito saudosista. Não trouxe nenhum objeto decorativo de lá (está tudo encaixotado), tenho aqui algumas coisas que ganho ou vou adquirindo das viagens que faço, fragmentos de uma identidade um pouco nômade, universal. Mas tenho uma Havaiana, uma Salinas, e vários CDs de música brasileira.

*Entrevista e fotos feitas por Karla Brunet em Barcelona, setembro de 2004.