Pra começar, descreve um pouco
tua pessoa. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Flávio: Flavio de Mattos,
jornalista, funcionário do Senado Federal brasileiro, em
licença para cursar um doutorado.
Quanto tempo faz que
moras fora do Brasil?
Flávio: Estou fora
do Brasil há dois anos e meio.
Por que saíste do país? Qual
o motivo de estar vivendo aqui?
Flávio: Saí do Brasil para
fazer um doutorado em jornalismo na Universidad Pompeu Fabra,
em Barcelona.
O que mais gosta daqui?
Flávio: O que mais gosto
daqui é poder andar pelas ruas a qualquer hora do dia ou
da noite.
Qual o melhor lugar da
cidade pra ti e por que?
Flávio: Barcelona tem muitos lugares
bons, é difícil dizer qual o melhor. Gosto muito
de uma característica desta cidade que é o fato
de que os barceloneses gostam da cidade e não abrem mão
de desfrutar dela. O maior exemplo disso são as Ramblas,
ainda que tomada pelos turistas de todo o mundo, não deixa
de ser usada e freqüentada pelas pessoas daqui. É
um dos lugares que gosto de passar sempre que posso. Outro lugar
de minha preferência é a parte alta da avenida Diagonal.
Gosto de passear por ali e ver o movimento do que seria a Zona
Sul daqui. Mas, talvez o ponto que eu mais gosto dessa cidade
é o Passeio Marítimo e o Porto Olímpico.
Passear no calçadão da praia de Bogatel, no verão
e parar nos xiringuitos, os quiosques daqui, que nos fins de tarde
sempre têm d.js. que mesclando música eletrônica
com batucada brasileira. Mas o must, é tomar sol no inverno
nos bancos que estão na praça do início da
praia.
O que menos gosta daqui?
Flávio: Ter que estar explicando
sempre que Brasil é um pouco mais do que carnaval, futebol
e caipirinha. Há muita ignorância e preconceito em
relação aos países em desenvolvimento, em
geral, não só quanto ao Brasil. Pensam que somos
algo assim como uma imensa floresta povoada por enormes favelas.
As pessoas, até as mais esclarecidas, se surpreendem que,
em alguns campos, possamos estar mais adiantados do que Espanha.
Na minha área, o jornalismo, estamos anos-luz diante deles.
Quando cheguei aqui, estranhei o estilo de jornalismo, que me
parecia muito provinciano, voltado para relatar fatos já
ocorridos e com pouca especulação quanto às
possíveis conseqüências deles. Como não
conhecia bem o país nem os jornais, pensava que podia ser
apenas uma diferença de maneira de abordar as notícias.
Hoje, que já conheço bem como funciona este país,
vejo que o jornalismo é realmente mal-feito. Tem vícios
que, como quase tudo de mal, se deve ainda à ditadura franquista:
um excesso de reverência às autoridades, uma total
dependência das fontes oficiais, que nunca são questionadas,
e uma preocupação muito pequena, quase nula, em
“ouvir o outro lado”, como dizemos na linguagem jornalística.
Por isso é tão fácil que os governos manipulem
os cidadãos, como fez durante todo o tempo da gestão
de José Maria Aznar. Contudo, discutir isso com os espanhóis
é sempre muito difícil. Por causa do juízos
prévios que têm em relação ao Terceiro
Mundo, costumam reagir muito mal a nossas críticas. Já
tive que ouvir alguém me dizer que como um país
que tem “meninos de rua” pode querer dar lições
de democracia a alguém. E mais uma vez ter que explicar
que a injustiça social é um problema que temos,
mas que nossa democracia está bastante consolidada e nossa
imprensa é absolutamente livre, de uma maneira que eles
não são capazes de imaginar porque nunca a viveram.
O que mais sente falta do Brasil?
Flávio: A descontração
brasileira.
O que menos sente falta
do Brasil?
Flávio: Da violência,
do medo, de ter que andar pela rua olhando quem está ao
lado, de dar a volta no quarteirão antes de entrar na garagem,
dessas coisas, não sinto a menor falta. O pior é
que quando vivemos no Brasil consideramos esse tipo de comportamento
como parte da normalidade. Achamos que a vida é assim,
esquecemos que nem sempre foi assim e que isso é algo que
está cada vez mais presente na vida da gente. Estamos sempre
esperando a nossa vez de ser seqüestrado em um caixa eletrônico,
nessa loteria ao contrário. Aqui me surpreendi descobrindo
que o normal é não ter medo. O normal é chegar
em casa de noite, abrir a porta e entrar, sem mais. Parar o carro
na porta da casa da namorada, conversar um pouco mais, dar um
beijo e ir embora, sabendo que ninguém vai encostar um
revolver na sua cabeça ou na dela por isso.
Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos
futuros?
Flávio: Minha licença acaba
no próximo ano e volto ao Brasil. Vou voltar para o Senado,
onde passarei a integrar o corpo de professores da Universidade
do Legislativo, voltada à formação de quadros
destinados a dar suporte aos trabalhos das Assembléias
Legislativas e Câmara de Vereadores de todo o País.
Tens algum objeto ou
algo em concreto que te lembre Brasil, que entendas como parte
da tua identidade brasileira?
Flávio: A coisa mais brasileira que tenho em casa é
uma reprodução do quadro da Tarsila do Amaral, Abaporu,
que eu comprei no Guggenheim de Bilbao. Achei o máximo
porque foi a capa do manifesto da Semana de Arte Moderna, de 1922,
e é um quadro muito representativo da arte brasileira.
Estava no Guggenheim porque fizeram ali uma exposição
chamada Brazil, Body and Soul, e esse quadro participou.
Mas de Brasil costumo também ter em casa
farinha de mandioca, fora é claro, muitos discos de mpb.
Até Roberto Carlos, que no Brasil não sentia a menor
necessidade de escutar, descobri que aqui me fazia falta. Vi que
muita coisa a gente quando está no Brasil ouve no rádio
e, mesmo que não goste muito, não muda de estação.
Aqui, que o rádio não toca essas coisas, acabamos
sentindo a necessidade de ter em casa, para as horas de nostalgia.
*Entrevista e fotos feitas
por Karla Brunet. Maio de 2004.