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Flávio de Mattos
Brasileiro, carioca, brasiliense, jornalista. Mora em Barcelona desde 2001. *

 

Pra começar, descreve um pouco tua pessoa. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Flávio: Flavio de Mattos, jornalista, funcionário do Senado Federal brasileiro, em licença para cursar um doutorado.

Quanto tempo faz que moras fora do Brasil?
Flávio: Estou fora do Brasil há dois anos e meio.

Por que saíste do país? Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Flávio: Saí do Brasil para fazer um doutorado em jornalismo na Universidad Pompeu Fabra, em Barcelona.

O que mais gosta daqui?
Flávio: O que mais gosto daqui é poder andar pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite.

Qual o melhor lugar da cidade pra ti e por que?
Flávio: Barcelona tem muitos lugares bons, é difícil dizer qual o melhor. Gosto muito de uma característica desta cidade que é o fato de que os barceloneses gostam da cidade e não abrem mão de desfrutar dela. O maior exemplo disso são as Ramblas, ainda que tomada pelos turistas de todo o mundo, não deixa de ser usada e freqüentada pelas pessoas daqui. É um dos lugares que gosto de passar sempre que posso. Outro lugar de minha preferência é a parte alta da avenida Diagonal. Gosto de passear por ali e ver o movimento do que seria a Zona Sul daqui. Mas, talvez o ponto que eu mais gosto dessa cidade é o Passeio Marítimo e o Porto Olímpico. Passear no calçadão da praia de Bogatel, no verão e parar nos xiringuitos, os quiosques daqui, que nos fins de tarde sempre têm d.js. que mesclando música eletrônica com batucada brasileira. Mas o must, é tomar sol no inverno nos bancos que estão na praça do início da praia.

O que menos gosta daqui?
Flávio: Ter que estar explicando sempre que Brasil é um pouco mais do que carnaval, futebol e caipirinha. Há muita ignorância e preconceito em relação aos países em desenvolvimento, em geral, não só quanto ao Brasil. Pensam que somos algo assim como uma imensa floresta povoada por enormes favelas. As pessoas, até as mais esclarecidas, se surpreendem que, em alguns campos, possamos estar mais adiantados do que Espanha. Na minha área, o jornalismo, estamos anos-luz diante deles. Quando cheguei aqui, estranhei o estilo de jornalismo, que me parecia muito provinciano, voltado para relatar fatos já ocorridos e com pouca especulação quanto às possíveis conseqüências deles. Como não conhecia bem o país nem os jornais, pensava que podia ser apenas uma diferença de maneira de abordar as notícias. Hoje, que já conheço bem como funciona este país, vejo que o jornalismo é realmente mal-feito. Tem vícios que, como quase tudo de mal, se deve ainda à ditadura franquista: um excesso de reverência às autoridades, uma total dependência das fontes oficiais, que nunca são questionadas, e uma preocupação muito pequena, quase nula, em “ouvir o outro lado”, como dizemos na linguagem jornalística. Por isso é tão fácil que os governos manipulem os cidadãos, como fez durante todo o tempo da gestão de José Maria Aznar. Contudo, discutir isso com os espanhóis é sempre muito difícil. Por causa do juízos prévios que têm em relação ao Terceiro Mundo, costumam reagir muito mal a nossas críticas. Já tive que ouvir alguém me dizer que como um país que tem “meninos de rua” pode querer dar lições de democracia a alguém. E mais uma vez ter que explicar que a injustiça social é um problema que temos, mas que nossa democracia está bastante consolidada e nossa imprensa é absolutamente livre, de uma maneira que eles não são capazes de imaginar porque nunca a viveram.

O que mais sente falta do Brasil?
Flávio: A descontração brasileira.

O que menos sente falta do Brasil?
Flávio: Da violência, do medo, de ter que andar pela rua olhando quem está ao lado, de dar a volta no quarteirão antes de entrar na garagem, dessas coisas, não sinto a menor falta. O pior é que quando vivemos no Brasil consideramos esse tipo de comportamento como parte da normalidade. Achamos que a vida é assim, esquecemos que nem sempre foi assim e que isso é algo que está cada vez mais presente na vida da gente. Estamos sempre esperando a nossa vez de ser seqüestrado em um caixa eletrônico, nessa loteria ao contrário. Aqui me surpreendi descobrindo que o normal é não ter medo. O normal é chegar em casa de noite, abrir a porta e entrar, sem mais. Parar o carro na porta da casa da namorada, conversar um pouco mais, dar um beijo e ir embora, sabendo que ninguém vai encostar um revolver na sua cabeça ou na dela por isso.

Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos futuros?
Flávio: Minha licença acaba no próximo ano e volto ao Brasil. Vou voltar para o Senado, onde passarei a integrar o corpo de professores da Universidade do Legislativo, voltada à formação de quadros destinados a dar suporte aos trabalhos das Assembléias Legislativas e Câmara de Vereadores de todo o País.

Tens algum objeto ou algo em concreto que te lembre Brasil, que entendas como parte da tua identidade brasileira?
Flávio: A coisa mais brasileira que tenho em casa é uma reprodução do quadro da Tarsila do Amaral, Abaporu, que eu comprei no Guggenheim de Bilbao. Achei o máximo porque foi a capa do manifesto da Semana de Arte Moderna, de 1922, e é um quadro muito representativo da arte brasileira. Estava no Guggenheim porque fizeram ali uma exposição chamada Brazil, Body and Soul, e esse quadro participou.

Mas de Brasil costumo também ter em casa farinha de mandioca, fora é claro, muitos discos de mpb. Até Roberto Carlos, que no Brasil não sentia a menor necessidade de escutar, descobri que aqui me fazia falta. Vi que muita coisa a gente quando está no Brasil ouve no rádio e, mesmo que não goste muito, não muda de estação. Aqui, que o rádio não toca essas coisas, acabamos sentindo a necessidade de ter em casa, para as horas de nostalgia.

*Entrevista e fotos feitas por Karla Brunet. Maio de 2004.