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Inaiá Ramos
Brasileira, baiana, socióloga. Mora em Barcelona desde 2001. *

 

Pra começar, fala um pouco de ti. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Inaiá: Sou baiana, 28 anos, cursando doutorado em sociologia. Gosto muito de ler literatura, poesia. O meu melhor prazer é viajar, conhecer novas culturas e costumes, fazer e reencontrar amigos, sou aficionada por cinema e artes em geral. Escuto diariamente MBP . Ah! e como todo bom baiano, adoro sol. Um fator importante que encontrei para viver em Barcelona.

Quanto tempo faz que mora fora do Brasil?
Inaiá: Fazem três anos que moro em Barcelona.

Por que saíste do país? Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Inaiá: Antes de decidir por Barcelona, tinha um projeto inicial de ir ao Sul da França para fazer uma pós-graduação em políticas culturais, que tinha grande interesse. Mas a França é muito mais burocrática para facilitar a documentação, aprovação da universidade, visto, etc. Sem falar no idioma, porque quase todos estes estudos pedem um nível de francês muito avançado. Mas o que realmente dificultou foi porque eles respondiam tudo por carta e não por Internet. Ou seja, demoravam meses para enviar informações. Coisa que na Espanha não ocorreu, o processo foi rápido e o idioma era mais acessível, mesmo que aqui nos encontramos com o idioma catalão.
Gosto muito da cidade em si. Tem uma arquitetura muito espirituosa, acho o Gaudi genial, mas o melhor é que as vezes me sinto numa cidade de interior com estrutura de cidade grande. Porque as distâncias são relativamente boas para ir caminhando e os transportes eficazes. Apenas faltaria ser mais cosmopolita, já que aqui vivem muitas culturas diferentes, mas isso não basta que o seja, acho que a mentalidade ainda é um pouco "provinciana" com relação ao estrangeiro. Entretanto do tempo que estou aqui, acho que melhoraram um pouco as convivências. Gosto também da segurança que sinto de ir e vir e saber que vou chegar em casa. Coisa que no Brasil as vezes, agente fica na dúvida. O clima é muito importante também. Tem os mesmos céus azuis de onde vim e faz pouco frio no inverno.

Qual o melhor lugar da cidade pra ti e por que?
Inaiá: Gosto de muitos lugares, de preferência os que tem mais vegetação. O parque Ciudadella, o Guell e o Tibidabo que de onde se esteja na cidade se pode ver. Mas de bairro, gosto do Raval, porque tem muita vida pelas diferentes culturas que habitam, é uma mistura de tudo, digamos que uma confusão bela. É um mundo a parte.

O que menos gosta daqui?
Inaiá: O Silêncio e os olhares das pessoas nos lugares comuns.
O medo das mesclas na desculpa do assassinato da língua.
As leis para os estrangeiros e a falta de simpatia.

O que mais sente falta do Brasil?
Inaiá: Tantas coisas, mais o principal é do calor humano do brasileiro. Porque comida a gente da um jeito encontra os ingrediente e faz. Das festas populares, a gente acostumar a perde-las com o tempo, a família sempre morro de saudades, mas um telefonema ou e-mail já ameniza, mas as pessoas a gente não muda. Sinto muita falta também da natureza, do cheiro das frutas e do mar.

O que menos sente falta do Brasil?
Inaiá: Das coisas que deveriam funcionar e não funcionam. A falta de melhores condições, mais democráticas e básicas de vida para todos e da insegurança que sentia.

Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos futuros?
Inaiá: Sempre penso em voltar para a Bahia, mais ainda tenho projetos para terminar por aqui. Acho que em dois anos volto. Tenho muitos planos para o futuro, viajar um pouco mais, aprender e aplicar minhas experiências no meu país.

Es casada? Tens filhos? Se tivesse gostaria de ter-los aqui ou no Brasil? Por que?
Inaiá: Sou casada e ainda não tenho filhos, se tivesse e pudesse escolher os teria no Brasil. Pois estaria perto da família e teria um pouco mais de espaço para criá-los. Mas se não pudesse escolher os teria aqui mesmo. Se são saudáveis o resto a gente da um jeito.

Gostarias de morar em outro país estrangeiro? Qual e por que?
Inaiá: Sim, moraria na França um tempo, pois gosto do idioma francês. E quem sabe
alguns meses em um pais africano como Moçambique, trabalhando por alguma
causa social.

Tens algum objeto ou algo em concreto que te lembre Brasil, que entendas como parte da tua identidade brasileira?
Inaiá: A minha fitinha do senhor do Bonfim que levo no braço, três desejos-sonhos no pulso. Mas identidade mesmo, sinto que quando a gente viaja muito e conhece novos horizontes, viramos cidadãos do mundo. Um pouquinho de cada lugar e cultura vai juntando por dentro. Mas o coração nunca deixa de ser brasileiro, porque no fim das contas, a "raiz" é que conta
.

*Fotos e entrevista feita por Karla Brunet. Abril de 2004.