Pra começar, fala um pouco de
ti. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Inaiá: Sou baiana, 28 anos, cursando doutorado em sociologia.
Gosto muito de ler literatura, poesia. O meu melhor prazer é
viajar, conhecer novas culturas e costumes, fazer e reencontrar
amigos, sou aficionada por cinema e artes em geral. Escuto diariamente
MBP . Ah! e como todo bom baiano, adoro sol. Um fator importante
que encontrei para viver em Barcelona.
Quanto tempo faz que
mora fora do Brasil?
Inaiá: Fazem três
anos que moro em Barcelona.
Por que saíste do país?
Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Inaiá: Antes de decidir por
Barcelona, tinha um projeto inicial de ir ao Sul da França
para fazer uma pós-graduação em políticas
culturais, que tinha grande interesse. Mas a França é
muito mais burocrática para facilitar a documentação,
aprovação da universidade, visto, etc. Sem falar
no idioma, porque quase todos estes estudos pedem um nível
de francês muito avançado. Mas o que realmente dificultou
foi porque eles respondiam tudo por carta e não por Internet.
Ou seja, demoravam meses para enviar informações.
Coisa que na Espanha não ocorreu, o processo foi rápido
e o idioma era mais acessível, mesmo que aqui nos encontramos
com o idioma catalão.
Gosto muito da cidade em si. Tem uma arquitetura muito espirituosa,
acho o Gaudi genial, mas o melhor é que as vezes me sinto
numa cidade de interior com estrutura de cidade grande. Porque
as distâncias são relativamente boas para ir caminhando
e os transportes eficazes. Apenas faltaria ser mais cosmopolita,
já que aqui vivem muitas culturas diferentes, mas isso
não basta que o seja, acho que a mentalidade ainda é
um pouco "provinciana" com relação ao
estrangeiro. Entretanto do tempo que estou aqui, acho que melhoraram
um pouco as convivências. Gosto também da segurança
que sinto de ir e vir e saber que vou chegar em casa. Coisa que
no Brasil as vezes, agente fica na dúvida. O clima é
muito importante também. Tem os mesmos céus azuis
de onde vim e faz pouco frio no inverno.
Qual o melhor lugar
da cidade pra ti e por que?
Inaiá: Gosto de muitos lugares,
de preferência os que tem mais vegetação.
O parque Ciudadella, o Guell e o Tibidabo que de onde se esteja
na cidade se pode ver. Mas de bairro, gosto do Raval, porque tem
muita vida pelas diferentes culturas que habitam, é uma
mistura de tudo, digamos que uma confusão bela. É
um mundo a parte.
O que menos gosta daqui?
Inaiá: O Silêncio e
os olhares das pessoas nos lugares comuns.
O medo das mesclas na desculpa do assassinato da língua.
As leis para os estrangeiros e a falta de simpatia.
O que mais sente falta do Brasil?
Inaiá: Tantas coisas, mais o principal
é do calor humano do brasileiro. Porque comida a gente
da um jeito encontra os ingrediente e faz. Das festas populares,
a gente acostumar a perde-las com o tempo, a família sempre
morro de saudades, mas um telefonema ou e-mail já ameniza,
mas as pessoas a gente não muda. Sinto muita falta também
da natureza, do cheiro das frutas e do mar.
O que menos sente falta
do Brasil?
Inaiá: Das coisas que deveriam
funcionar e não funcionam. A falta de melhores condições,
mais democráticas e básicas de vida para todos e
da insegurança que sentia.
Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos
futuros?
Inaiá: Sempre penso em voltar
para a Bahia, mais ainda tenho projetos para terminar por aqui.
Acho que em dois anos volto. Tenho muitos planos para o futuro,
viajar um pouco mais, aprender e aplicar minhas experiências
no meu país.
Es casada? Tens filhos? Se tivesse gostaria
de ter-los aqui ou no Brasil? Por que?
Inaiá:
Sou casada e ainda não tenho filhos, se tivesse e pudesse
escolher os teria no Brasil. Pois estaria perto da família
e teria um pouco mais de espaço para criá-los. Mas
se não pudesse escolher os teria aqui mesmo. Se são
saudáveis o resto a gente da um jeito.
Gostarias de morar em outro país
estrangeiro? Qual e por que?
Inaiá: Sim, moraria na França um tempo, pois gosto
do idioma francês. E quem sabe
alguns meses em um pais africano como Moçambique, trabalhando
por alguma
causa social.
Tens algum objeto ou algo em concreto
que te lembre Brasil, que entendas como parte da tua identidade
brasileira?
Inaiá: A minha fitinha do senhor do Bonfim que levo no
braço, três desejos-sonhos no pulso. Mas identidade
mesmo, sinto que quando a gente viaja muito e conhece novos horizontes,
viramos cidadãos do mundo. Um pouquinho de cada lugar e
cultura vai juntando por dentro. Mas o coração nunca
deixa de ser brasileiro, porque no fim das contas, a "raiz"
é que conta.
*Fotos e entrevista feita
por Karla Brunet. Abril de 2004.